FALA DA PRESIDENTE

Confrades e amigos da ABRAMES,

É com imensa satisfação que vivo este momento único, o da posse na presidência da Academia Brasileira de Médicos Escritores - ABRAMES biênio 2010/2011, que há 22 anos atua no cenário cultural brasileiro e leva suas teses, idéias, mensagens e sentimentos para o mundo da língua portuguesa.

Não estarei sozinha na empreitada de dar continuidade aos trabalhos dos que me antecederam na presidência da nossa Academia, porque nada se faz sem a colaboração de parceiros. Isso significa diálogo constante, não só com os diretores desta casa de cultura, mas também com todos os acadêmicos e com a sociedade. Se durante todos esses anos conseguimos manter viva a ABRAMES, por meio das muitas de suas atividades, neste terceiro milênio, um novo desafio nos é imposto pela dinâmica do mundo atual, o de socializar o conhecimento produzido nesta casa, que é uma das guardiãs da cultura da nossa cidade, do nosso estado e do nosso país. Este desafio só será vencido com a união de todos os nossos pares. Assim, temos compromissos não apenas com os escritores e poetas médicos, mas com a sociedade de uma forma geral.

Se a medicina contribui para curar doenças, a literatura e a poesia ajudam a curar a alma. E há muitas almas a serem cuidadas. Se não podemos curá-las, que suas dores, ao menos, sejam aliviadas por meio dos nossos escritos.

Nós, escritores e poetas, trabalhamos com o imaginário, com o lúdico. Ao mesmo tempo em que expomos nossas emoções, emocionamos aqueles que nos lêem. Ampliar nosso universo de leitores deve ser uma de nossas metas. Por isso, em nossos encontros devemos procurar estimular a prática de repensar a dinâmica de uma guardiã da cultura, como a ABRAMES. Também devemos incentivar o debate sobre nossas práticas e intensificar as discussões sobre a nossa função social. Afinal, como uma referencia cultural, nossa casa também tem compromisso com a educação, não no sentido escolar da palavra, mas no sentido mais amplo. Assim sendo, como produtores de conhecimento, somos também produtores de informação e, por que não dizer, formadores de opinião.

E a informação, seja ela jornalística, artística, pedagógica, técnica, científica ou cultural e a transmissão do conhecimento são partes de um processo educativo que deve aliar todos que acreditam que é possível viver a utopia de uma sociedade melhor. Só um cidadão bem informado e que tem acesso a bens culturais é capaz de exercer conscientemente a sua cidadania. Nesse sentido, temos muito a contribuir.

Ao longo desses anos construímos a nossa história por meio da nossa produção literária. E, como a história se reescreve sem cessar, continuaremos a escrevê-la. Somos ao mesmo tempo autores e sujeitos dessa história que não pode ser apenas preservada, mas também difundida. É importante que possamos integrar nossas atividades com as da Historia da Medicina, divulgando nossa atuação para entidades afins e para as escolas de Medicina de todo o Brasil. Nossos estudantes devem ser informados sobre a importância do humanismo, e a literatura, seja ela em prosa ou verso, é um dos meios da expressão humanista. Nesse encontro com o outro, é preciso também agregar as diversas entidades literárias às nossas reuniões mensais; integrar a ABRAMES, de forma cada vez mais efetiva, com a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, com a Sociedade Brasileira de História da Medicina - Seção Rio de Janeiro e com a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – RJ e com o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ), que neste momento solene abre seu espaço para nós, pelo que agradecemos.

Um passo importante foi dado com a criação do nosso site que potencializou melhor e de forma mais rápida a comunicação entre a ABRAMES e a sociedade. Nosso site há de possibilitar contato mais estreito de norte a sul, de leste a oeste do País e, também, com o exterior, contribuindo para fortalecer a integração não só de seus acadêmicos e eméritos, mas também de nossos leitores. Gostaria de lembrar a todos os colegas que utilizem o site para divulgar seus trabalhos, para interagir com a sociedade e para dialogar a distância com seus pares. O site da ABRAMES é o espaço que dá visibilidade à nossa produção e, portanto, é fundamental para a difusão do nosso trabalho cultural. Nosso site é uma das mais importantes contribuições da diretoria do biênio 2008/2009. Nosso agradecimento a webdesigner Inês de Sá.

Espaço igualmente importante para a perpetuação e a socialização dos trabalhos produzidos pelos acadêmicos é a biblioteca. Embora o nosso acervo/memória esteja sediado na rua Senador Dantas, no centro da cidade – pretendemos facilitar o acesso ao público, com a já avançada a negociação, com a Biblioteca Municipal de Botafogo Machado de Assis de ceder um espaço destinado ao acervo literário da ABRAMES, que se chamará Espaço Zilda Cormack, em homenagem à nossa acadêmica que há muito vem se dedicando a cuidar das nossas obras. O espaço será identificado por placa da ABRAMES. A biblioteca pública nos oferece a guarda, o controle e garantirá os cuidados necessários à conservação e à manutenção do acervo. E por ser uma biblioteca aberta ao público, certamente veremos o número de leitores e pesquisadores aumentar. A iniciativa da parceria com a Biblioteca Machado de Assis partiu da diretoria que hoje nos passa o cargo que muito nos honra.

Com o Espaço Zilda Cormack aberto e organizado, vamos propor que a memória da ABRAMES seja resgatada por meio de pesquisa de documental e iconográfica. Se todos os acadêmicos colaborarem doando material para esse fim, nosso acervo certamente será ampliado. Ainda dentro do capítulo “resgate da memória da ABRAMES” precisamos contar com a ajuda dos acadêmicos e eméritos no sentido de manterem seus cadastros atualizados para que não haja ruídos na nossa comunicação. Sejam colaboradores efetivos, o trabalho que irá garantir a imortalidade dos nossos autores é a nossa biblioteca. Por isso, é importante que todos os autores estejam ali representados por suas obras.

Uma casa como a ABRAMES, que estimula o interesse pela literatura, não poderia deixar de dar continuidade ao concurso literário. Por isso, prepusemos que o nosso concurso anual passasse a ter duas categorias: uma, para acadêmicos e outra especial, para o público em geral. Dessa forma, estamos incentivando também o despertar de novos talentos. Já lá se vai o tempo em que uma instituição como a nossa realizava reuniões fechadas, exclusivas a seus membros. Num mundo interligado pelas mais diversas redes, precisamos abrir nossas portas a todos aqueles que queiram se aproximar da ABRAMES. E, para diversificar nossas ações, propomos dinamizar a literatura nas reuniões mensais, com integrações das mais diversas formas de arte e de expressão, pois é na diversidade que reside a riqueza da nossa cultura.

Temos à frente dois anos de muito trabalho. Disposição não nos falta, parceiros também não. Juntos poderemos caminhar em direção ao nosso ideal, o de disseminar a cultura na esperança de que, com nossas ações, possamos nos juntar àqueles que acreditam na formação de uma sociedade na qual o encontro das diferenças humanas e da diversidade cultural se dê de forma respeitosa e enriquecedora, tornando-a, por isso mesmo, mais humanizada. Isso será possível se soubermos inovar na gestão do nosso conhecimento. O fazer humanizado em saúde implica em clínica ampliada, processos co-gestores, acolhimento, saúde do trabalhador, direitos dos usuários, ativação de redes sociais. A recuperação da memória das ações de humanização mostra pluralidade de iniciativas. Nossos esforços no registro em publicações as tornam visíveis interna e externamente, este é mais um dos nossos compromissos.

A poesia “humaniza o homem”. Um artista não exprime emoções que apenas serão entendidas por ele, mas o que é comum aos outros homens. Isto é a Universalidade na poesia. Sobre a dimensão temporal, se dirá como Goethe: “Um homem de gênio só é de sua geração por seus defeitos”. A poesia não pode almejar permanecer como posse de poucos, pois é libertadora, é pensamento qualificado, porque reflete sentimentos humanos e incorpora arte e liberdade, enquanto elaboração criativa e conceitual. A poesia deve ser instrumento civilizatório, de educação da sensibilidade das massas, tanto quanto o possível. Por ser a mais antiga das ocupações intelectuais, através da qual o homem contou, primeiramente, os seus delírios e alumbramentos, relatou aventuras, organizou sentimentos e desenvolveu a arte de amar, a poesia possibilitou ao homem adquirir humanidade.

A poesia é a porta de entrada para um mundo de percepções ultra-humanas, ficcionais ou não, que deixa a arte e a invenção como substrato e não paga tributo a nenhuma moral. Devemos cultuar os deuses da poesia que nada nos cobram a não ser a coragem de que nos lancemos ao abismo do lírico, e sem rede. Esta é a diferença entre poetas e não-poetas: O prazer de se atirar ao vento; a poesia supõe dor, coragem e incômodo, parteiros da verdadeira arte, como uma vez nos ensinou a “bruja” Clarice Lispector.


Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010.

Juçara Regina Viegas Valverde
Presidente da Abrames, Biênio 2010/11.


Fragmento do texto “A Excelência da Poesia - Aforismos acerca da arte poética” do Grupo de Humanização Poética: Juçara R. V. Valverde e Ricardo Sant’Anna Reis.

ALUNOS DE MEDICINA

Que as mãos percebam

mais que o tumor

Que o olhar expresse

mais que piedade

Que ouça

mais que fale

Que as palavras informem

mais que verdades

Que as ações digam

mais que o diagnóstico

Que as atitudes

demonstrem alem do saber

Que a postura

explane mais que respeito

Que seu caráter

seja alimentado pela esperança

E humanizar a vida humana

seja uma de suas metas.

Observando os alunos de 5°ano de Medicina fazendo prova de Cirurgia Geral no HUPE UERJ

RECICLAGEM

Ligar as ventoinhas,

refrescar a mente.

Apertar o cinto,

repartir o leite.

Nutrir em vez de comer,

pensar no colesterol. Apertar as mãos,

lavadas com alcool-gel

Respirar mais fundo,

mas tossir protegida pelo lenço.

Andar um pouco mais,

observar as flores, o sol e a lua.

Respeitar os sinais,

frear deixando o pedestre passar.

Iluminar a ignorância,

acender as luzes internas.

Ouvir o outro,

esquecer o umbigo.

Questionar o amigo,

oferecer o abraço

Sorrir, acariciar,

trocar emoções.

Que os Anjos nos ajude nesta empreitada.